
Em plena Primavera de 1981 (30 de maio), na recém-inaugurada pista (de piso sintético, curiosamente de cor verde) instalada no Estádio José de Alvalade, Fernando Mamede como que lançou o “grito de Ipiranga” depois de bater o recorde da Europa dos 10.000 metros ao correr a distância em 27.27,7, no que foi ovacionado por uma multidão que, incrédula, preenchia por completo a bancada central do Estádio.
Foto: Arquivo
Com uma simplicidade na passada, uma férrea vontade de mostrar a si próprio e, em especial, ao grande Mestre Moniz Pereira (treinador desde o início da carreira) que podia valer muito mais do que tinha conquistado até essa altura.
Por curiosidade, o jornalista – que desempenhou as funções de juiz, sendo o locutor da competição –, antigo colega de equipa de Mamede no Sporting (ainda que noutras disciplinas), teve oportunidade de relatar em direto a fenomenal corrida que deu brado nos brandos costumes da sociedade desportiva portuguesa da altura.
Depois de uma carreira de cerca de vinte anos em que bateu mais de meia centena de recordes (dos 400 aos 10.000, tendo atingido a bitola máxima com o recorde mundial a dupla légua, cifrado em 27.13,81, em 2 de julho de 1984, a um mês dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, onde não aguentou a pressão e desistiu.
Com este recorde mundial, Mamede era, sem dúvida, o candidato número um para conquistar o ouro nos Jogos Olímpicos, mas o problema foi do italiano Primo Nebiolo, que naquela altura presidia à Federação Internacional de Atletismo, ter atrasado a validação do recorde mundial alcançado por Mamede, para favorecer o compatriota Alberto Cova, que estava algo longe do registo acabado de fazer pelo recordista mundial, atraso que, dia a dia, foi corroendo o então mediano espirito psicológico do campeão português, que não aguentou a pressão.
Mamede passou ainda pelo corta-mato, onde conquistou a medalha de bronze num mundial, onde Carlos Lopes brilhou a toda a altura ao conquistar três títulos mundiais (1976, 1984 e 1985), com Mamede também na equipa nacional.
Fernando Mamede que, a par de Carlos Lopes, foram os europeus que mais “mandaram” no meio-fundo mundial nesses belos anos setenta/oitenta, com Portugal sempre nas posiç´~oes cimeias dos rankings mundiais.
E muito mais haveria por dizer sobre este bejense de raça, que acabou por falecer com problemas cardíacos, que surgiram nos últimos tempos, deixando de ser visto no local de “trabalho”, quando se deslocava para as garagens do atual Estádio Alvalade para um “footing” com os antigos colegas do clube.
“O atletismo português chora a perda de uma das suas figuras mais emblemáticas: Fernando Mamede, um ídolo eterno que nos deixou esta terça-feira, aos 74 anos. Natural de Beja — onde nasceu a 11 de novembro de 1951 —, Mamede foi recordista mundial dos 10 000 metros, expoente máximo do desporto nacional e internacional, e inspiração para gerações de atletas e adeptos. A sua carreira, marcada por uma excelência desportiva inigualável e uma luta interior constante, transformou-o numa referência imarcescível da história do atletismo português” – segundo a nota publicada pela Federação Portuguesa de Atletismo.
Domingos Castro – também companheiro nas equipas do Sporting e atual presidente da Federação Portuguesa de Atletismo – adiantou ainda que “Fernando Mamede deixa saudades eternas pela velocidade, garra e legado que perdura nas pistas do mundo. Neste momento de profunda consternação, a Federação Portuguesa de Atletismo apresenta à família e a toda a comunidade do atletismo as mais sentidas condolências, formulando votos de que, unidos, possam encontrar forças para ultrapassar esta hora tão difícil”.
A notícia foi confirmada pelo Sporting Clube de Portugal, numa nota onde manifesta o profundo pesar pela morte do antigo atleta dos Leões, tendo referido que “foi um dos maiores nomes da história do desporto português e do emblema de Alvalade, especializou-se nas provas de fundo. Para além das inúmeras medalhas, entre elas a de bronze nos Campeonatos do Mundo de corta-mato em 1981, foi recordista europeu e mundial”, recordou o clube.
O Comité Olímpico de Portugal enalteceu, através das redes sociais, “um dos maiores nomes do atletismo nacional, que esteve presente em três edições dos Jogos Olímpicos”, enquanto a Federação Portuguesa de Futebol lamentou a morte de “um atleta de eleição”.
“A morte de Fernando Mamede representa uma enorme perda para todo o Desporto português. Atleta de eleição, foi uma das maiores figuras de sempre do atletismo mundial e uma referência para todos os adeptos da modalidade”, segundo a mensagem do presidente da FPF, Pedro Proença, divulgada no site oficial da entidade.
