Quinta-feira 19 de Fevereiro de 2026

Papa Leão XIV e a Vida em Abundância e a Ética sobre o valor do Desporto

Captura de ecrã 2026-02-19 163252

DR / IOC

De forma afável, como é timbre oficial, o Papa Leão XIV divulgou a Carta remetida a todos os católicos, designando-os como “Queridos irmãos e irmãs”, por ocasião da celebração da XXV edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão e Cortina d’Ampezzo (quase a terminar), e da XIV edição do Jogos Paralímpicos de Inverno, a efetuar entre 6 a 15 de março.

Na missiva, Leão XIV tentava marcar, quiçá, posição pública sobre o assunto, com o objetivo de, no mínimo, provocar uma Trégua Olímpica em que as “guerras” latentes nalgumas partes do globo terrestre, tendo em vista honrar o passado (em que isto se cumpria) e as hostilidades parariam nos mesmos períodos.

Pelo que referiu “dirigir o desejo e uma saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a todos. A prática desportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional, de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos, embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática desportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano”.

Aproveitou para recordar que “por ocasião de anteriores edições dos Jogos Olímpicos, os meus predecessores sublinharam como o desporto pode desempenhar um papel importante para o bem da humanidade, em particular para a promoção da paz. Em 1984, por exemplo, São João Paulo II, dirigindo-se aos jovens atletas de todo o mundo, citou a Carta Olímpica, que considera o desporto como um fator de ‘melhor compreensão mútua e de amizade, com o objetivo de construir um mundo melhor e mais pacífico’. Ele encorajou os participantes com estas palavras: “Fazei que os vossos encontros sejam um sinal simbólico para a sociedade inteira e um prelúdio daquela nova era, em que os povos “não levantarão a espada contra outra nação”.

Nesta linha insere-se a Trégua Olímpica, que na Grécia antiga era um acordo destinado a suspender as hostilidades antes, durante e depois dos Jogos Olímpicos, para que os atletas e os espectadores pudessem viajar livremente e as competições decorressem sem interrupções. A instituição da Trégua surgiu da convicção de que a participação em competições regulamentadas (agones) constitui um caminho individual e coletivo para a virtude e a excelência (aretē). Quando o desporto é praticado neste espírito e nestas condições, ele promove o amadurecimento da coesão comunitária e do bem comum.

“A guerra, pelo contrário, nasce de uma radicalização do desacordo e da recusa em cooperar uns com os outros. O adversário é então considerado um inimigo mortal, a ser isolado e, se possível, eliminado. As trágicas evidências dessa cultura de morte estão diante dos nossos olhos – vidas destruídas, sonhos frustrados, sobreviventes traumatizados, cidades destruídas –, como se a convivência humana fosse superficialmente reduzida ao cenário de um videojogo. Mas isto nunca nos deve fazer esquecer que a agressividade, a violência e a guerra são “sempre uma derrota para a humanidade”.

Em tempo oportuno, a Trégua Olímpica foi recentemente proposta pelo Comité Olímpico Internacional e pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Num mundo sedento de paz, precisamos de instrumentos que ponham “fim à prevaricação, à demonstração de força e à indiferença pelo Direito”. Por ocasião dos próximos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, encorajo vivamente todas as nações a redescobrir e respeitar este instrumento de esperança que é a Trégua Olímpica, símbolo e profecia de um mundo reconciliado, pela elevação do valor formativo do desporto.

Captura de ecrã 2026-02-19 162053

DR

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, palavras de Jesus que nos ajudam a compreender o interesse da Igreja pelo desporto e a forma como o cristão se aproxima dele. Jesus sempre colocou as pessoas no centro, cuidou delas, desejando para cada uma delas a plenitude da vida. Por isso, como afirmou São João Paulo II, a pessoa humana “é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão”. A pessoa, portanto, segundo a visão cristã, deve permanecer sempre no centro do desporto em todas as suas expressões, mesmo nas de excelência competitiva e profissional.

A bem ver, uma base sólida para essa consciência encontra-se nos escritos de São Paulo, conhecido como o Apóstolo das Gentes. Na época em que ele escrevia, os gregos já possuíam tradições atléticas há muito tempo. Por exemplo, a cidade de Corinto patrocinava os jogos ístmicos a cada dois anos desde o início do século VI a.C.; por isso, ao escrever aos coríntios, Paulo recorreu a imagens desportivas para os introduzir na vida cristã: “Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas só um ganha o prémio? Correi, pois, assim, para o alcançardes. Os atletas impõem a si mesmos toda a espécie de privações: eles, para ganhar uma coroa corruptível; nós, porém, para ganhar uma coroa incorruptível» (1Cor 9, 24-25).

Seguindo a tradição paulina, muitos autores cristãos utilizaram imagens atléticas como metáforas para descrever as dinâmicas da vida espiritual; e isto, até hoje, faz-nos refletir sobre a profunda unidade entre as diferentes dimensões do ser humano. Embora não faltem, em épocas passadas, escritos cristãos – influenciados por filosofias dualistas – que têm uma visão bastante negativa do corpo, a corrente principal da teologia cristã enfatizou a bondade do mundo material, afirmando que a pessoa é uma unidade de corpo, alma e espírito.

Reflexão de São Tomás de Aquino

Com efeito, os teólogos da Antiguidade e da Idade Média refutaram veementemente as doutrinas gnósticas e maniqueístas, precisamente porque estas consideravam o mundo material e o corpo humano como intrinsecamente maus. Segundo estas conceções, o objetivo da vida espiritual consistiria em libertar-se do mundo e do corpo. Pelo contrário, os teólogos cristãos apelaram às convicções fundamentais da fé: a bondade do mundo criado por Deus, a realidade da encarnação do Verbo e a ressurreição da pessoa na sua harmonia de corpo e alma.

Esta compreensão positiva da realidade física favoreceu o desenvolvimento de uma cultura na qual o corpo, unido ao espírito, estava plenamente envolvido nas práticas religiosas: peregrinações, procissões, teatros sacros, sacramentos e oração que recorre a imagens, estátuas e várias formas de representação.

A reflexão de São Tomás de Aquino sobre o jogo e o exercício físico colocava em primeiro plano a “moderação” como traço fundamental de uma vida virtuosa. Segundo Tomás, esta não diz respeito apenas ao trabalho ou às ocupações consideradas sérias, mas também requer tempo para o jogo e o descanso. Escreve o Aquinate: «Como diz Agostinho: “Peço-te que concedas a ti mesmo uma pausa de vez em quando: é conveniente que o homem sábio, às vezes, relaxe a tensão da atenção aplicada ao trabalho”. Ora, esse relaxamento da mente do trabalho consiste em palavras e ações lúdicas. Portanto, é conveniente que, às vezes, o homem sábio e virtuoso recorra a elas».

O valor formativo do desporto

Com o estabelecimento do cristianismo no Império Romano, os espetáculos desportivos típicos da cultura romana – em particular as lutas entre gladiadores – começaram progressivamente a perder relevância social. No entanto, a Idade Média foi marcada pelo surgimento de novas formas de prática desportiva, como os torneios de cavalaria, nos quais a Igreja concentrou a sua atenção ética, contribuindo também para a sua reinterpretação numa chave cristã, como é testemunhado pela pregação do abade São Bernardo de Claraval.

No mesmo período, a Igreja reconheceu o valor formativo do desporto, graças também à contribuição de figuras como Hugo de São Vítor e São Tomás de Aquino. Hugo, na sua obra Didascalicon, sublinhou a importância das atividades gímnicas no currículo dos estudos, contribuindo para moldar o sistema educativo medieval.

São Tomás reconhece que as pessoas brincam porque o jogo é fonte de prazer e, portanto, praticam-no por ele mesmo. Respondendo a uma objeção segundo a qual um ato virtuoso deve ser direcionado a um fim, ele observa que «as ações lúdicas não são ordenadas a um fim externo, mas apenas ao bem daquele que as pratica, na medida em que são agradáveis ou proporcionam descanso». Essa “ética do jogo” elaborada por Tomás de Aquino exerceu uma influência notável na pregação e na educação.

O desporto, escola de vida e areópago contemporâneo

Na passagem do século XIX ao século XX, o fenómeno desportivo tornou-se popular. Além disso, nasceram os Jogos Olímpicos da era moderna (1896). Leigos e pastores dedicaram uma atenção mais cuidadosa e sistemática a essa realidade. A partir do pontificado de São Pio X (1903-1914), nota-se um crescente interesse pelo desporto, testemunhado por numerosas declarações pontifícias. Nelas, a Igreja Católica, pela voz dos Papas, propôs uma visão do desporto centrada na dignidade da pessoa humana, no seu desenvolvimento integral, na educação e na relação com os outros, destacando o seu valor universal como instrumento de promoção de valores como a fraternidade, a solidariedade e a paz. É emblemática a pergunta feita pelo Venerável Pio XII num discurso dirigido aos atletas italianos em 1945: “Como poderia a Igreja não se interessar [pelo desporto]?».

Graças à leitura dos sinais dos tempos, cresceu, portanto, a consciência eclesial da importância da prática desportiva. O Concílio representou um florescimento neste campo: desenvolveu-se a reflexão sobre o desporto em relação à vida de fé e uma multiplicidade de experiências pastorais no âmbito desportivo revelaram, nas décadas seguintes, a sua força geradora. Também os Dicastérios da Santa Sé promoveram iniciativas válidas em diálogo com este âmbito humano.

Muito significativos foram os dois Jubileus do Desporto celebrados por São João Paulo II: o primeiro em 12 de abril de 1984, no Ano da Redenção; o segundo em 29 de outubro de 2000, no Estádio Olímpico de Roma. Nesta mesma linha, inscreveu-se o Jubileu de 2025, que relançou explicitamente o valor cultural, educativo e simbólico do desporto como linguagem humana universal de encontro e esperança. Foi esta orientação que motivou a escolha de acolher o Giro d’Italia no Vaticano: a grande competição ciclística é um evento desportivo, mas também uma narrativa popular capaz de atravessar territórios, gerações e diferenças sociais, e de falar ao coração da comunidade humana em caminho.

Muito além dos locais da mais antiga tradição cristã, parece evidente que o desporto está amplamente presente nas culturas das quais temos testemunho. Mesmo as culturas tradicionalmente orais deixaram vestígios de campos de jogos, equipamentos atléticos, bem como imagens ou esculturas relacionadas com as suas práticas desportivas. Há, portanto, muito a aprender com as tradições desportivas das culturas indígenas, dos países africanos e asiáticos, das Américas e de outras regiões do mundo.

Ainda hoje, o desporto continua a desempenhar um papel significativo na maioria das culturas. Ele oferece um espaço privilegiado de relacionamento e diálogo com os nossos irmãos e irmãs pertencentes a outras tradições religiosas, bem como com aqueles que não se identificam com nenhuma delas.

Leão XIV, na missiva, discorreu ainda sobre o Desporto e o desenvolvimento da pessoa e o Desporto, relacionamento e discernimento, referindo que em muitas sociedades, o desporto está intimamente ligado à economia e às finanças. É evidente que o dinheiro é necessário para apoiar as atividades desportivas promovidas por instituições públicas, outros organismos cívicos e instituições educativas, bem como as privadas de nível competitivo e profissional. Os problemas surgem quando o negócio se torna a motivação principal ou exclusiva. Então, as escolhas já não são motivadas pela dignidade das pessoas, nem pelo que favorece o bem do atleta, o seu desenvolvimento integral e o da comunidade.

Quando se visa maximizar o lucro, dá-se valor excessivo ao que pode ser medido ou quantificado, em detrimento de dimensões humanas de importância incalculável: “só importa o que pode ser contabilizado”. Esta mentalidade invade o desporto quando a atenção se concentra obsessivamente nos resultados alcançados e nas quantias que podem ser obtidas com a vitória. Em muitos casos, mesmo a nível amador, os imperativos e os valores do mercado chegaram a obscurecer outros valores humanos do desporto, que merecem, pelo contrário, ser preservados.

O Papa Francisco chamou a atenção para os efeitos negativos que tais dinâmicas podem ter sobre os atletas, afirmando: “Quando o desporto é considerado unicamente em conformidade com parâmetros económicos ou de consecução da vitória a todo o custo, corre-se o perigo de reduzir os atletas a uma mera mercadoria lucrativa. Os próprios atletas entram num mecanismo que os arrasa, perdem o verdadeiro sentido da sua atividade, aquela alegria de jogar que os atraía quando eram adolescentes e que os impeliu a fazer tantos sacrifícios autênticos e a tornar-se campeões. O desporto é harmonia, mas se prevalecer a busca desmedida do dinheiro e do sucesso, esta harmonia interrompe-se».

O Papa Francisco destacou várias vezes este aspeto quando encorajou os jovens atletas a serem jogadores de equipa. Disse, por exemplo: «Fazei jogo de grupo, de equipa. Pertencer a uma sociedade desportiva significa rejeitar qualquer forma de egoísmo e de isolamento, é a ocasião para encontrar e estar com os outros, para se ajudar, para competir na estima recíproca e crescer na fraternidade».

Quando os desportos coletivos não são contaminados pelo culto do lucro, os jovens “entram no jogo” em relação a algo que é muito importante para eles. Trata-se de uma formidável oportunidade educativa. Nem sempre é fácil reconhecer as próprias capacidades ou compreender como elas podem ser úteis para a equipa. Além disso, trabalhar em conjunto com os colegas da mesma idade implica, às vezes, a necessidade de enfrentar conflitos, lidar com frustrações e fracassos. É preciso até aprender a perdoar. Assim, ganham forma virtudes pessoais, cristãs e cívicas fundamentais.

Os treinadores desempenham um papel fundamental na criação de um ambiente em que estas dinâmicas possam ser vividas, acompanhando os jogadores ao longo delas. Dada a complexidade humana envolvida, ajuda muito quando um treinador é animado por valores espirituais. Existem muitos treinadores deste tipo, nas comunidades cristãs e em outras realidades educativas, bem como a nível competitivo e profissional de elite. Eles frequentemente descrevem a cultura da equipa como algo baseado no amor, que respeita e apoia cada pessoa, encorajando-a a expressar o melhor de si mesma para o bem do grupo. Quando um jovem faz parte de uma equipa deste tipo, aprende algo essencial sobre o que significa ser humano e crescer. Com efeito, «só juntos nos tornamos autenticamente nós mesmos. Só no amor a nossa interioridade torna-se profunda e a nossa identidade forte».

Competição e cultura do encontro

Ampliando o olhar para as competições desportivas, estas também podem desempenhar um papel importante na promoção da unidade entre as pessoas. É interessante que a palavra competição derive de duas raízes latinas: cum – «juntos» – e petere – «pedir». Numa competição, portanto, pode-se dizer que duas pessoas ou duas equipas buscam juntas a excelência. Não são inimigos mortais. E no tempo que antecede ou segue a competição, geralmente há a oportunidade de se encontrarem e conhecerem.

É por isso que a competição desportiva, quando é autêntica, pressupõe um pacto ético comum: a aceitação leal das regras e o respeito pela verdade da disputa. A rejeição do doping e de qualquer forma de corrupção, por exemplo, é uma questão não só disciplinar, mas que toca o coração mesmo do desporto. Alterar artificialmente o desempenho ou comprar o resultado significa quebrar a dimensão do cum-petere, transformando a busca comum pela excelência numa prepotência individual ou de um grupo.

O verdadeiro desporto, em vez disso, educa para uma relação serena com o limite e com a norma. O limite é uma linha com a qual conviver: é o que torna o esforço significativo, o progresso inteligível, o mérito reconhecível. A norma é a “gramática” partilhada que torna possível o próprio jogo. Sem regras não há competição, nem encontro, mas apenas caos ou violência. Aceitar os limites do próprio corpo, do tempo, do esforço e respeitar as regras comuns significa reconhecer que o sucesso nasce da disciplina, da perseverança e da lealdade.

Nesse sentido, o desporto oferece uma lição decisiva mesmo além do campo de competição: ensina que se pode aspirar ao máximo sem negar a própria fragilidade, que se pode vencer sem humilhar, que se pode perder sem ser derrotado como pessoa. A competição justa guarda assim uma dimensão profundamente humana e comunitária: não separa, mas relaciona; não torna absoluto o resultado, mas valoriza o caminho; não idolatra o desempenho, mas reconhece a dignidade de quem joga.

A competição justa e a cultura do encontro não dizem respeito apenas aos jogadores, mas também aos espectadores e aos adeptos. O sentimento de pertença à própria equipa pode ser um elemento muito significativo da identidade de muitos adeptos: eles partilham as alegrias e as desilusões dos seus heróis e encontram um sentido de comunidade com os outros apoiantes. Isso é geralmente um fator positivo na sociedade, fonte de rivalidade amigável e piadas, mas pode tornar-se problemático quando se transforma numa forma de polarização que leva à violência verbal e física. Então, de expressão de apoio e participação, o torcer transforma-se em fanatismo; o estádio torna-se um local de conflito em vez de encontro. Aqui, o desporto não une, mas radicaliza, não educa, mas deseduca, porque reduz a identidade pessoal a uma pertença cega e opositora. Isto é particularmente preocupante quando o ser adepto está ligado a outras formas de discriminação política, social e religiosa, sendo indiretamente utilizado para expressar formas mais profundas de ressentimento e ódio.

As competições internacionais, em particular, oferecem uma ocasião privilegiada para experimentar a nossa humanidade comum na riqueza da sua diversidade. Com efeito, há algo de profundamente comovente nas cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos, quando vemos os atletas desfilar com as bandeiras nacionais e os trajes característicos dos seus países. Experiências como estas podem inspirar-nos, recordando-nos que somos chamados a formar uma única família humana. Os valores promovidos pelo desporto – tais como a lealdade, a partilha, o acolhimento, o diálogo e a confiança nos outros – são comuns a todas as pessoas, independentemente da sua origem étnica, da cultura e da crença religiosa.

Leão XIV abordou ainda questões como Desporto, relacionamento e discernimento; Uma pastoral do desporto para a vida em abundância, concluindo que, neste horizonte, os desportistas constituem um modelo que deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência quotidiana fala de ascese e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas qualidades podem iluminar toda a vida social. A vida espiritual, por sua vez, oferece aos desportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado. Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade. Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano.

Tudo isso encontra o seu horizonte último na promessa bíblica que dá o título a esta Carta: a vida em abundância. Não se trata de uma acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra corpo, relações e interioridade. Em termos culturais, a vida em abundância convida a libertar o desporto de lógicas redutoras que o transformam em mero espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o desporto pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos.

Pelo que se tem visto nos Jogos Olímpicos de Inverno, as estrelas principais – os desportistas de competição – tem tido um comportamento olimpicamente probatório das respetivas qualidades físicas, mentais, de espírito olímpico e de ética, fazendo exibições de grande nível, superando-se a si próprios (recordes mundiais tem sido muitos) com um sorriso nos lábios, “porque é transcendência, a conduta motora (a ação) que acrescenta alguma coisa ao Mundo, através do inesperado, do novo, do insólito” – segundo o filósofo português Manuel Sérgio.

 

© 2026 Jogada do Mês. Todos os direitos reservados. XHTML / CSS Valid.