Terça-feira 31 de Março de 2020

“Gerações Olímpicas” contaram vidas para memória futura no Lisboa Ginásio

Gerações Olímpicas822Em ano de Jogos Olímpicos, quando se entrou numa nova década, a “corrida” para a Tóquio’2020 começou da melhor forma no que se refere à promoção do espírito olímpico, com base no trabalho desempenhado pelo Barão de Pierre de Coubertain, o “pai” dos Jogos.

Não tanto – ou até um pouco desviado – do que era o ideal olímpico mas graças ao gigantismo (comercial) que foi secundando olimpíada a olimpíada, onde tudo evoluiu no aspecto da educação física e do desporto, com realce para o tecnicismo que as modalidades hoje apresentam, que levam milhões a “colarem-se” aos écrans de tv por todo o planeta, para além dos que assistem, ao vivo, às pelejas desportivas.

Vem isto a propósito da iniciativa tomada pela Academia Olímpica de Portugal (AOP), que implementou – a par do Comité Olímpico de Portugal – um programa cultural olímpico’2020, com o objectivo de divulgar o que se disse no intróito, ainda que em vários âmbitos.

Dias atrás, realizou-se a primeira acção do projecto “Tertúlias Olímpicas”, com a “audição” do primeiro campeão olímpico português, Carlos Lopes, o campeão dos campeões, pelo que se fez por este país no decorrer de uma longa carreira de 22 anos, aqui em parceria com o CNID-Associação dos Jornalistas de Desporto.

Os outros campeões olímpicos

Desta fez, no primeiro “Encontro de Gerações Olímpicas”, o parceiro foi o centenário Lisboa Ginásio Clube, que colocou à disposição dos presentes, que quase enchiam o auditório, os primeiros quatro ginastas portugueses que actuaram nos Jogos Olímpicos.

Recorde-se que o Lisboa Ginásio teve 12 ginastas presentes nos Jogos, dos quais dez ainda estão vivos – entre os quais os que se apresentaram nesta primeira sessão – sendo que os restantes seis vão tomar parte nas próximas sessões, previstas para Junto e Outubro de 2020.

Gerações Olímpicas 1

DR

Nomes de relevo como Joaquim Granjer e Raul Caldeira e as então belas e formosas Esbela da Fonseca e Helena Cunha estiveram na primeira linha.

Os rapazes de então apresentaram-se em 1952 (Helsínquia) e as jovens raparigas em 1960, tendo Esbela da Fonseca repetido a presença em 1964 (Tóquio) e no México (1968).

Que recordações guardam estas quatro personalidades histórias da ginástica portuguesa sobre a participação nos Jogos? Que ideia lhes fica da comparação entre a ginástica dos anos 50 e 60 e a da actualidade? Que momentos e que personalidades foram marcantes nas respectivas carreiras? Que valores mais prezam no desporto?

Questões, entre outras, que foram afloradas pelos quatro ilustres ginastas olímpicos portugueses que deliciaram muitos milhares pelos pavilhões portugueses e estrangeiros, pese embora a diferença, abismal, que ora se verifica no que respeita às técnicas utilizadas em cada disciplina.

Jorge Marcelo, presidente da Direcção da colectividade sita na Rua dos Anjos (Lisboa), começou por enaltecer a organização do evento, salientando que o “Lisboa Ginásio é o clube com mais ginastas olímpicos em Portugal, pelo que sentimos um carinho especial por, uma vez mais, podermos cooperar com o COP e a AOP para dar a conhecer, aos mais novos, o exemplo destes campeões de outros tempos, trazendo para os dias de hoje as histórias dos que iniciaram a ginástica em Portugal, o que contribuíram para que este clube tivesse conquistado o Troféu Olímpico”.

Para Helena Cunha (76 anos), considerada, como referiu, como um “mosquito eléctrico”, “o sonho de querer ir aos Jogos Olímpicos começou quando tinha oito anos, dado que, nessa altura, estar presente era saber que as guerras paravam para que todos pudéssemos conviver. Dado que a idade era curta e porque tinha que fazer exames médicos, o clínico que me atendeu recomendou-me para ir para a ginástica “correctiva”. O que cumpri, ainda que tivesse sido autorizada a fazer esse tipo de ginástica. Foi o princípio de que o sonho podia ser concretizado. Mas levou muito tempo a concretizar, mais a mais por ser menina, que tinham menos facilidades que os rapazes. Só que as forças eram mais fortes e consegui passar todos os obstáculos que foram sendo colocados para chegar a Roma, em 1960, juntamente com a Esbela”.

Esbela da Fonseca, dentro do mesmo “quadro” etário, recordou que “para mim foi mais fácil chegar à prática da actividade física, porquanto a minha mãe tinha sido atleta no Sporting, pelo que o hábito já existia”.

Prosseguindo, salientou que “tive que passar maus bocados, onde até podia ter tido problemas físicos graves, dado que treinava sozinha, sem mais ninguém no ginásio, podendo cair dos aparelhos, naquela altura muito maus”.

Realçou que “com o trabalho feito, conseguiu ser primeira do ano das quatro categorias que na altura existiam, tendo o privilégio de poder ir aos Jogos em 1960, onde ficámos alojados em edifícios diferentes dos rapazes, espaço onde não conseguíamos dormir porquanto as japonesas levantavam-se às seis da madrugada para fazer o pré-aquecimento para o treino. Coisas…”

Raul Caldeira (93 anos), bem “mexido” e danado para contar “histórias”, como que entrou a “matar”, ao dizer que “os Jogos Olímpicos actuais são uma treta”, tando frisado que “são uma subversão lenta e gradual dos princípios do ideal olímpico, transformado num espectáculo e negócio de interesses”. Importa realçar a lucidez com que este jovem de 93 anos se “atreve” a dizer o que muita gente não quer assumir.

Frisou, a propósito, que “em 1952 foi um encontro de atletas amadores para se desenvolverem como pessoas” e não “como agora se vê, em que são todos profissionais, com interesses variados quanto ao futuro”.

Joaquim Granger (91 anos), mais comedido – por uma questão de estilo pessoal – sublinhou que “também tive as minhas dificuldades, aliás como os que pertenciam ao Lisboa Ginásio, mas consegui chegar a Helsínquia em condições consideradas mínimas, porquanto a viagem foi feita de barco, onde a equipa portuguesa ficou alojada, se bem que tenha conseguido 9 pontos na minha prova, o que foi muito bom, em especial para quem, como eu, que nunca pensou estar nuns Jogos Olímpicos”.

Várias outras “histórias” foram gravadas para a tal memória futura, num encontro em que uns se reencontraram e outros estiveram pela primeira vez (os jovens da actualidade), numa com que passagem de testemunho de “Gerações Olímpicas”.

 

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