De acordo com a notícia veiculada pela AIPS no respetivo site, a importância do jornalismo desportivo investigativo como ferramenta de responsabilização e reforma no desporto africano foi o tema central do 8º Congresso Internacional da Associação de Imprensa Desportiva da África (AIPS África), em Banjul, Gâmbia.
Uma sessão do painel dedicada ao jornalismo de investigação desportiva examinou como reportagens aprofundadas e de grande impacto podem ajudar a expor a corrupção, a manipulação de resultados e as falhas administrativas em federações desportivas em todo o continente.
A sessão interativa contou com a participação dos jornalistas investigativo gambiano Mustapha K. Darboe, premiado diversas vezes; e senegalês Hamadou Tidiane Sy (nas imagens) ambos destacando o papel crucial do jornalismo investigativo na responsabilização de administradores, dirigentes e atletas do desporto.
Durante o debate, Darboe destacou diversos fatores que limitam o crescimento e a eficácia do jornalismo desportivo em África, incluindo conflitos de interesse e a falta de persistência na busca por pautas de interesse público.
“Temos visto jornalistas que têm relações próximas com administradores, ou que atuam como executivos em clubes de futebol administrados por federações, e isso limita sua capacidade de responsabilizar o poder”, disse Darboe.
Enfatizou ainda que o jornalismo esportivo investigativo deve ser usado para mudar narrativas e transformar o desporto no continente, instando os jornalistas a acompanharem consistentemente questões-chave como processos de licitação, desenvolvimento de infraestruturad, governança e gestão de fundos dentro das federações desportivas.
Citando a Gâmbia como exemplo, Darboe questionou a falta de fiscalização em relação aos atrasos nas reformas dos estádios e aos gastos decorrentes delas.
“Temos um estádio na Gâmbia. Ele foi reformado, mas não cumpriu vários prazos, e ninguém questionou os motivos ou quanto dinheiro foi gasto. Nenhuma auditoria física foi realizada. Os investimentos em instalações desportivas na África são frequentemente prejudicados pela corrupção”, observou, apontando para um tema que merece investigação.
Darboe enfatizou ainda que o jornalismo desportivo oferece vastas oportunidades para expor irregularidades dentro das administrações desportivas.
“Existem oportunidades incríveis para jornalistas desportivos revelarem a corrupção em larga escala nas nossas administrações desportivas”, acrescentou.
Contribuindo também para a discussão, o jornalista senegalês Hamadou Tidiane Sy compartilhou ideias sobre como o jornalismo desportivo deinvestigação pode ser usado para melhorar a governança e posicionar o desporto como um empreendimento económico viável para a África.
Acredita firmemente que o mundo do desporto está repleto de assuntos a serem investigados, principalmente quando há dinheiro envolvido. “Onde quer que haja interesses financeiros significativos, há potencial para investigação. Como diz o ditado: siga o dinheiro e você encontrará um furo de reportagem.”
Para se envolver plenamente na investigação, Sy acredita que alguns comportamentos precisam ser mudados.
“A proximidade entre jornalistas desportivos e funcionários da federação é tamanha que dificulta a realização de investigações, pois investigar exige certo distanciamento. Na prática, há aqueles que organizam o espetáculo, noticiam os placares, cobrem as competições, comparecem às reuniões, etc., e que raramente investigam o desporto. E, no entanto, estão sentados numa mina de ouro”, destacou Hamadou Tidiane Sy.
Que continuou dizendo que “Há uma escolha a ser feita entre dar um show e vender um sonho às pessoas, e ser a pessoa que procura e revela coisas que podem estragar o show.”
O painel concluiu com um apelo para que os jornalistas desportivos africanos adotem o jornalismo investigativo como uma ferramenta poderosa para a reforma, a transparência e o desenvolvimento sustentável do desporto em todo o continente.
Ainda que possa não ser inédito, a verdade é que a África – pelo menos pelo exemplo citado – está a dar um passo muito importante para credibilizar não só o desporto como, também, os jornalistas para que sejam os porta-voz dos que querem um desporto verdadeiramente “limpo”, transparente, com integridade, como se impõe cada vez mais no mundo de hoje.
Assunto que é abrangente – com Portugal incluído – onde este processo tem tido como um retrocesso face à quase inexistência de notícias a este respeito publicadas na comunicação social.
Que haja Homens e Mulheres (jornalistas, para o caso) que tenham a coragem de – se conseguirem condições para isso, isto é, uma retaguarda forte e segura, que não vacile – trazer à luz do dia aquilo que não deve ser feito, que contrarie as leis e regulamentação vigente.

