O mítico Vicente Lucas, tal como o seu irmão, Matateu, que chegaram ao Continente (nasceram na Colónia de Moçambique) depressa se adaptaram ao “clima” da então “mãe pátria, aquém e além-mar” que se vivia na altura – anos 50 do século passado – e tornaram-se ídolos no Clube de Futebol Os Belenenses.
Para lá foram e por lá ficaram a encantar um Restelo muito mais pequeno, mas que foi sempre realçado pela beleza de um Estádio a quem foi dado, nos tempos, o nome do “Almirante Américo Tomás”, que foi Presidente da República.
Da saga da vida desportiva, o maior realce de Vicente foi obtido no Campeonato do Mundo de Futebol ao “tapar quase por completo” os movimentos protagonizados pela grande estrela que foi Pelé, o que ajudou muito Portugal a alcançar o terceiro lugar na competição, feito nunca conseguido por qualquer modalidade em Portugal.
Por tudo isso, e o mais que a seguir se transcreve do que o Clube de Futebol Belenenses publicou no site na internet, salientando esta figura ímpar que foi Vicente Lucas:
“Um Homem bom, simples, modesto e afável, que não gostava de afirmações sensacionalistas, mas a verdade manda que se diga: Vicente era até hoje a maior figura viva do Belenenses, uma lenda não só do nosso Clube como do futebol português e mundial, (re)conhecido pelo seu desportivismo, correcção, nobreza de carácter e valor futebolístico.
Vicente Lucas nasceu em Moçambique a 24 de Setembro de 1935, logo no dia seguinte a um aniversário do Clube de Futebol “Os Belenenses”, o Clube onde chegou em 30 de Julho de 1954, com apenas 18 anos, quando já o seu irmão Matateu era um ídolo de primeira grandeza. Tanto no Belenenses como na Selecção Nacional, impôs-se à admiração e consideração gerais. Jogador elegante e de fina técnica, com impecável sentido posicional, começou como médio de sentido atacante – marcando logo o golo da vitória sobre o FC Porto na sua estreia oficial – e foi depois recuando para funções mais defensivas, onde obteve a maior consagração, com uma invulgar capacidade de marcação e de antecipação que fez popularizar a frase, tantas e tantas vezes repetida, “Corta Vicente”.
Em doze épocas ao serviço do Belenenses, teve treinadores de renome como Fernando Riera, Helénio Herrera, Fernando Vaz ou Otto Glória, defrontou, muitas vezes em tardes e noites de glória, Real Madrid, Barcelona, Milan, Roma, Valência, Sevilha, Stade Reims, Burnley, Newcastle, Panahtinaikos, Hibernian, Dínamo de Zagreb, Santos, Vasco da Gama e tantos outros. Aí encontrou pela frente jogadores marcantes da história do futebol mundial, como Pelé, Di Stéfano, Kopa, La Fontaine ou Kubala. Numa dessas ocasiões, em Junho de 1955, por ocasião de uma Taça Latina, escreveu o célebre “France Football”: “Não terminemos sem rever o comportamento de um elemento do Belenenses que confirmou toda a sua classe, o médio-esquerdo Vicente Lucas, o irmão de Matateu. Que actividade! Quer estar em toda a parte ao mesmo tempo. Ele é tão bom na defesa como no ataque. Com um estilo de uma ‘souplesse’ magnífica, efectua um ‘vai-e-vem’ contínuo. Com 19 anos, Vicente Lucas é, sem dúvida alguma, um dos melhores médios europeus”.
Nos Campeonatos Nacionais, ao serviço dos Rapazes da Praia, actuou em 284 jogos onde alcançou dois 4ºs lugares, quatro 3ºs lugares e um 2º lugar – o do dramático Campeonato perdido a 4 minutos do fim, em 1955. Venceu a Taça de Portugal de 1960, em cuja final o Belenenses bateu o Sporting por 2-1, com o nosso Vicente a receber e erguer o troféu para júbilo dos adeptos azuis. Era ele o capitão da equipa, aos 25 anos, facto bem elucidativo do seu carácter.
Em competições europeias, entre Taça Latina e Taça UEFA, disputou 14 jogos ao serviço do Clube.
E na Selecção Nacional viveu igualmente momentos extraordinários. Representou a Selecção Nacional A por 20 vezes, com destaque para o Mundial de 1966, onde Portugal obteve o terceiro lugar com o país a vibrar de entusiasmo.
Numa das suas últimas entrevistas aos canais de comunicação do Clube, deixou a mensagem que a todos tocou: “O Belenenses é tudo para mim”.
Vicente Lucas – “o Homem que secou Pelé” – deixou-nos hoje, 14 de Abril de 2026, aos 90 anos.
Aos seus familiares, nomeadamente a seu filho, Rui, e a sua sobrinha, Argentina, o Belenenses – num dos seus dias mais tristes – apresenta as mais sentidas condolências!
Descansa em Paz, Vicente!”
Depois do velório – ontem realizado na Capela do Mosteiro dos Jerónimos, contando com a presença da equipa sénior de futebol, na manhã desta quinta-feira será feita a despedida a partir das 9 horas com o velório até às 11 horas, seguindo-se a Missa de Corpo Presente, saída para o Estádio do Restelo em cortejo pedonal, abertura das portas da bancada poente inferior do Estádio do Restelo para um último adeus na presença da urna de Vicente Lucas, será cumprido um minuto de silêncio junto ao busto de Vicente Lucas no Mural dos Campeões do Estádio, seguindo-se (13h) a saída do Estádio do Restelo em direcção ao Crematório de Barcarena, onde terá lugar a Cerimónia de Cremação, pelas 14 horas.


