Terça-feira 31 de Março de 2020

Causas psicológicas no menor rendimento de Nelson Évora e Fernando Pimenta?

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DR COP

“No alto rendimento há muito cuidado com as lesões físicas mas ignora-se as psicológicas”, escreveu o psicólogo Sidónio Serpa – uma referência internacional de alto gabarito nesta área – em “A Bola”, para se referir à vida desportiva (e não só) do mais medalhado atleta olímpico de sempre, como é o caso do norte-americano Michael Phelps, que conquistou 28 medalhas olímpicas, 23 delas em ouro.

Como relata Sidónio Serpa, Phelps foi “obrigado” a treino bidiário desde os 10 anos de idade, que o levou a passar por várias situações que, em fase extrema, o podiam ter levado à morte.

Abandonou os estudos, foi proibido de praticar outros desportos – quando se recomenda que os jovens façam um pouco de tudo – e o chegar à depressão foi num ápice, onde se incluiu ainda o alcoolismo, o consumo de droga, que o levaram ao internamento para uma recuperação psicológica.

Isto para justificar que, para além da parte física, provavelmente poucos (ainda) são os que se preocupam com a parte psicológica do atleta.

Talvez possamos encontrar aqui parte da resposta para as não conseguidas medalhas por parte de Nelson Évora e de Fernando Pimenta, a que se podem juntar as de Jéssica Augusto e Sara Moreira, embora nestas duas foi (ou terá sido) a parte física a “dar de si” em primeiro lugar. Ou talvez não, se recordarmos que não é o corpo que comanda a mente mas sim a mente a dar ordens ao corpo.

Não se quer dizer que não terá havido acompanhamento psicológico. Mas que faltou qualquer “coisa” disso não há dúvida.

Os factores, endógenos e exógenos, que estão associados à vida de um desportista de alto rendimento são tantos que não é possível criar imunidades para todos. Há sempre uma “brecha” que se abre, em determinado momento, permitindo a “entrada” de factores que, podendo ser considerados como motivadores e, logo, positivos, penetram a mil à hora até no cérebro dos mais fortes, criando debilidades com efeitos diversos.

Falamos da exposição pública, que pode afectar o cérebro, colocá-lo em confronto com o subconsciente, de onde dificilmente se sairá com positividade.

Factores deste tipo podem ser, por exemplo, aquilo que os atletas, no seu raciocínio, pensam e dizem sem pensar que isso cria mais ansiedade. “Vão ser os mil metros da minha vida” – referiu Fernando Pimenta ao ser apurado para a final, tendo salientado ainda que “há favoritos (e Pimenta era um) que chegam aqui e bloqueiam e outros atletas conseguem superar-se!”

No final chorou – os homens também choram, ponto final – e encontrou nos factores “externos” um certo escape, complementando que “foi um jogo de roleta em que a bala saiu-me a mim”.

No que se refere a Nélson Évora a frase divulgada ainda foi mais forte do ponto de vista da ansiedade: “ainda tenho mais dinamite para dar!”

Estes baluartes do desporto nacional já comprovaram que são dos melhores do mundo. Mas nem sempre tudo está a favor (deles e de outros). Conquistaram medalhas em Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo e da Europa.

No Rio de Janeiro, os “ventos” não estiveram com eles, nem mesmo com o Cristo Redentor por perto.

Há muito mais para conquistar. Mas será bom ter presente o que, uma vez mais, referiu Sidónio Serpa: “no alto rendimento há muitos cuidados com as lesões físicas, mas ignora-se as psicológicas”. E também, acrescentamos, consultores de imprensa com muita experiência de e nas cabinas!

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