Quarta-feira 17 de Julho de 2019

A Final em que Venceu o Futuro

IMG_4406  Com o objectivo em apreço, o Instituto Português da Juventude e do Desporto promoveu uma sessão evocativa da final da Taça de Portugal de 1968/1969 – realizada em 22 de Junho de 1969, no Estádio Nacional, que colocou frente a frente as equipas do Benfica e da Académica de Coimbra, recordação que ficou registada na placa que Tiago Brandão Rodrigues e João Paulo Rebelo, respectivamente Ministro da Educação e Secretário de Estado da Juventude e do Desporto inauguram na Praça da Maratona do Estádio Nacional.

Este acto fica também assinalado pelo facto de ter surgido, em Abril de 1969, o que foi o primeiro “grito de liberdade” que se tornou conhecido como a “crise da Academia”, por via da “revolta” que Alberto Martins (que foi Ministro anos mais tarde) iniciou em Coimbra, quando ousou pedir a palavra – que não foi concedida – para falar num auditório repleto de estudantes e onde estava presente o então Presidente da República, Américo Tomaz.

IMG_4409Depois do “mal-estar”, Alberto Martins foi preso pela PIDE e, a partir daí, se reforçou a luta da classe estudantil, que teve outro momento alto precisamente em pleno Estádio Nacional, no dia da final da Taça de Portugal, que teve como protagonistas, como se referiu, o Benfica e a Académica de Coimbra, com os estudantes a apresentarem, publicamente, painéis com palavras de ordem contra o governo em exercício (Marcelo Caetano era o Primeiro Ministro).

O Benfica venceu (2-1) e, daí, talvez não ter havido “estômago” para “embandeirar em arco”, o que podia ter acontecido se a Académica tivesse ganho, como chegou a pairar, porquanto os estudantes foram os primeiros a marcar, o Benfica empatou e seguiu-se o desempate, que Eusébio … desempatou!

Parte de uma memória que existiu, que existe e que perdurará não só pelos que, de ontem, ainda cá estão hoje, mas cuja memória está registada para o futuro. Daí a máxima de que “sem memória não há futuro” ou, dito de outra maneira, “a memória faz parte e integra o futuro”.

Entre as figuras que protagonizaram estes momentos altos, dentro de um país a “desfazer-se” (com a guerra colonial pelo meio), esteve presente Manuel Alegre que, relativamente ao tempo, já lutava contra o regime, e que, numa das quadras escritas amiúde, simbolizou uma realidade que, na altura, não foi “decifrada” e que ficou na placa comemorativa dos 50 anos da Taça de Portugal no Estádio Nacional, cujo texto dizia

IMG_4403 (1)“Mesmo na noite mais triste

Em tempo de servidão

Há sempre alguém que resiste

Há sempre alguém que diz não!”

Para bom entendedor meia palavra basta.

Impactante também foi o discurso de Alberto Martins que, entre outras coisas, salientou que a “ equipa da Académica demonstrou um sentido de respeito e de honra nesse dia 22 de Junho e foi o símbolo de revolta e da contestação dos estudantes de Coimbra. Nessa altura, Portugal era um país atrasado, com 40 por cento de analfabetos, envolvido numa guerra colonial, isolado do resto do mundo, sob uma ditadura e com polícia política”.

Na evocação do evento, Tiago Brandão Rodrigues, Ministro da Educação, considerou que a final da Taça de Portugal em futebol de 1969, “fintou a ditadura e foi o prenúncio do 25 Abril”.IMG_4408

“Aquela final de 1969 foi especial, fintou a ditadura e marcou muitos golos. No campo ganhou o Benfica, mas fora dele quem ganhou foi cada um de nós. Sabíamos, em Coimbra e em todo o país, que algo ali tinha começado”,

As outras figuras foram os homens em campo na altura: Mário Campos (capitão da Académica), Toni, Simões e Francisco Andrade. Toni também se iniciou em Coimbra e passou a representar o Benfica precisamente na época de 1968/69, o “grande” Simões e o técnico academista Francisco Andrade, também ex-jogador, tendo estado ainda presentes Pauleta, Rosa Mota e outras figuras do dirigismo desportivo português.

Um contar de histórias de outros tempos, dos momentos que se viveram no período que antecedeu a final da Taça, no dia do jogo, dentro dos balneários e “dentro” do jogo”, porquanto ninguém sabia o que podia acontecer, mais a mais quando os jogadores da Académica se apresentaram no relvado com a tradicional capa de estudante universitário, numa conversa ao correr do tempo pela “pena” de Vítor Serpa, Director do Jornal A Bola.

Para recordar também que o Governo dessa altura mandou cancelar a transmissão televisiva do jogo e que nem o Primeiro-ministro nem o Presidente da República estiveram na tribuna Jamor – como sempre fora e é tradicional – tendo a Taça sido entregue pelo então Director-Geral dos Desportos, Armando Rocha.

Uma iniciativa que evocou o 50.º Aniversário da Taça de Portugal entre Sport Lisboa e Benfica e Académica de Coimbra em 1969, jogo muito relevante do ponto de vista político, pois marcaria o início da história recente de Portugal, o fim do Estado Novo e o início da democracia.

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